<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><feed xmlns="http://www.w3.org/2005/Atom" ><generator uri="https://jekyllrb.com/" version="3.10.0">Jekyll</generator><link href="https://lvella.github.io/feed.xml" rel="self" type="application/atom+xml" /><link href="https://lvella.github.io/" rel="alternate" type="text/html" /><updated>2026-07-01T23:23:33+00:00</updated><id>https://lvella.github.io/feed.xml</id><title type="html">Lucas Clemente Vella の Blog</title><subtitle>Things that I need to write before I die.</subtitle><entry><title type="html">O direito perdido com as vendas digitais</title><link href="https://lvella.github.io/o-direito-perdido-com-as-vendas-digitais/" rel="alternate" type="text/html" title="O direito perdido com as vendas digitais" /><published>2026-07-01T00:00:00+00:00</published><updated>2026-07-01T00:00:00+00:00</updated><id>https://lvella.github.io/o-direito-perdido-com-as-vendas-digitais</id><content type="html" xml:base="https://lvella.github.io/o-direito-perdido-com-as-vendas-digitais/"><![CDATA[<p>A exaustão de direitos de propriedade intelectual é um princípio do direito reconhecido em vários países. Conhecido em inglês como <em>first-sale doctrine</em>, ele estabelece que, uma vez que um produto protegido por direitos autorais é vendido legalmente, a pessoa que o comprou tem o direito de revender, emprestar ou doar esse produto (na ótica do detentor da propriedade intelectual, o direito de controlar a distribuição do produto se esgota, por isso seu nome). Efetivamente, aquela cópia específica se torna um direito patrimonial real do comprador, passível inclusive de ser herdado.</p>

<p>Apesar de ser um princípio muito pouco mencionado na literatura em português, e sem uma codificação específica, ele é de fato existente e dificilmente questionado no Brasil. Esse princípio é o que permite a existência de sebos, e o comércio em geral de mídias usadas (CDs, DVDs, discos de vinil, VHS, cartuchos de videogame, etc.) e até mesmo jogos de tabuleiro usados, que são protegidos por direitos autorais. Portanto, esses direitos estão definitivamente estabelecidos na sociedade brasileira.</p>

<p>Dito isto, a Sony acabou de anunciar o encerramento da produção de mídias físicas de jogos para PlayStation em janeiro de 2028. Para PC, as mídias físicas já acabaram há muito tempo, sendo a venda de jogos dominada por Steam e semelhantes. A situação de obras audiovisuais (filmes, séries, música) é ainda pior: são raramente compradas, mesmo que em formato digital, e geralmente só temos acesso por subscrição ou <em>stream</em> com propaganda. Felizmente, ainda temos muitos livros impressos, e isso não está nem perto de acabar, mas Kindle e concorrentes são cada vez mais comuns.</p>

<p>Não sei se a situação de grandes coleções de filmes, livros e música digitais é tão pronunciada, mas no caso de jogos, não é incomum pessoas com centenas (ou até milhares) de jogos digitais em plataformas fechadas, como Steam ou PlayStation Network, que para todos os efeitos transacionais e psicológicos, foram comprados como se compra um jogo físico, mas onde essa “propriedade” é somente uma ilusão criada por licenças de direito autoral. Você não pode vender esse jogo, não pode emprestar, não pode doar, e se você morrer, seus herdeiros perdem tudo.</p>

<p>A princípio faz um certo sentido o princípio da exaustão não se aplicar a produtos digitais: imagina que você comprou um livro digital, leu, e depois quer vender. O hipotético comprador vai receber uma cópia digital que pode ser lida e revendida, mas quem garante que você realmente vai apagar a sua cópia, te impedindo de reler ou revender o mesmo livro? A natureza única de uma cópia física, que permite a existência do direito de propriedade real sobre um livro, não existe naturalmente em produtos digitais, e logo, por inércia, a eles não se aplica o princípio da exaustão.</p>

<p>Mas é claro que o argumento acima é uma falácia. Qualquer um que tenha um livro no Kindle ou um jogo na Steam sabe que o acesso ao conteúdo é cuidadosamente controlado pela plataforma. A cópia real de um jogo Steam, com todo o conteúdo do jogo, é irrelevante aqui e pode ser livremente copiada. No final das contas, ele só vai poder ser executado se a Steam detectar que você tem o direito de executá-lo primeiro. A maioria (ponderada por número de usuários) das plataformas de venda de conteúdos digitais emprega mecanismos tecnológicos e criptográficos de controle de acesso ao conteúdo, os chamados DRM (<em>Digital Rights Management</em>), entretanto, somente na parte que lhes interessa, vedando a transferência, venda, herança, empréstimo, e tudo mais que o princípio da exaustão permitiria.</p>

<p>Considerando que o último bastião de acesso aos jogos físicos (PlayStation) vai acabar em 2028, este é um momento oportuno para reivindicar que o princípio da exaustão de direitos de propriedade intelectual seja codificado, e explicitamente aplicado a produtos digitais vendidos com DRM. É do interesse geral da sociedade que bens digitais sejam direito patrimonial real do comprador, de modo que uma coleção de jogos na Steam possa ser tão valiosa quanto uma coleção de discos de vinil, ou de livros raros. Não é impensável que o mesmo se aplique também à propriedade virtual adquirida por microtransação, dado o tamanho do mercado interno de jogos como Fortnite, Roblox, GTA Online, e outros, onde elementos do jogo são colecionáveis e comprados com dinheiro real.</p>

<p>A geração que está crescendo comprando bibliotecas inteiras dentro de contas fechadas está se acostumando com este novo modelo. Se a resistência política não vier logo, enquanto o modelo clássico de propriedade sobre seus jogos, livros e filmes ainda é pertinente, ele pode se tornar uma exceção histórica.</p>]]></content><author><name></name></author><summary type="html"><![CDATA[A exaustão de direitos de propriedade intelectual é um princípio do direito reconhecido em vários países. Conhecido em inglês como first-sale doctrine, ele estabelece que, uma vez que um produto protegido por direitos autorais é vendido legalmente, a pessoa que o comprou tem o direito de revender, emprestar ou doar esse produto (na ótica do detentor da propriedade intelectual, o direito de controlar a distribuição do produto se esgota, por isso seu nome). Efetivamente, aquela cópia específica se torna um direito patrimonial real do comprador, passível inclusive de ser herdado.]]></summary></entry><entry><title type="html">How much do I need to retire?</title><link href="https://lvella.github.io/how-much-to-retire/" rel="alternate" type="text/html" title="How much do I need to retire?" /><published>2026-06-19T00:00:00+00:00</published><updated>2026-06-19T00:00:00+00:00</updated><id>https://lvella.github.io/how-much-to-retire</id><content type="html" xml:base="https://lvella.github.io/how-much-to-retire/"><![CDATA[<p>You need this much to retire:</p>

\[\frac{E}{\ln\left(\frac{1 + r}{1 + i}\right)}\]

<p>where</p>

<dl>
  <dt>$E$</dt>
  <dd>your yearly expenses.</dd>
  <dt>$r$</dt>
  <dd>the expected annual return on your investments.</dd>
  <dt>$i$</dt>
  <dd>the expected annual inflation rate.</dd>
</dl>

<p>This doesn’t mean you can’t retire with less, but if you have at least this much (and your inflation-adjusted expenses, investment returns, and inflation rate don’t change), you can retire for sure. With less, you risk running out of money before dying.</p>

<p>Practical example: suppose I need ₺ 10,000 per month to live, and get 1% return per month on my investments, and the inflation is 0.6% per month (notice I am using month instead of year, because the time period doesn’t matter, as long as you stay consistent). Then, I need at least:</p>

\[\frac{10,000}{\ln\left(\frac{1 + 0.01}{1 + 0.006}\right)} \approx ₺ \, 2,519,996.69.\]

<p>This post is kind of a follow-up to <a href="/retirement-equation/">The Retirement Equation</a>, where we derived the following ordinary differential equation for the evolution of your principal $P$ over time, given only investment returns and expenses:</p>

\[\frac{dP}{dt} = P \ln\left(\frac{1 + r}{1 + i}\right) - E\]

<p>where $P$ (for principal) is the amount of money you have.</p>

<p>The first term is the returns on your investments (which hopefully is positive). The second term is your expenses, which is inexorably negative. The epiphany is that the formula leading this post follows immediately from this ODE, because:</p>

<ul>
  <li>If $P \ln\left(\frac{1 + r}{1 + i}\right) &lt; E$, you lose money over time,</li>
  <li>If $P \ln\left(\frac{1 + r}{1 + i}\right) &gt; E$, you gain money over time, and</li>
  <li>If $P \ln\left(\frac{1 + r}{1 + i}\right) = E$, that’s exactly where your inflation-adjusted gains and expenses stay balanced.</li>
</ul>

<p>Juggling this last equation around, we get that $P$ equals the formula at the beginning of this post, for the absolute minimum you need to retire.</p>

<p>I encourage you to read the original post to get the assumptions behind this derivation. Beyond the obvious (you can’t predict future rates), this is a continuous approximation to what in reality happens discretely (i.e. returns happen monthly, or daily, or quarterly, etc., and expenses happen in small lumps over time). It is good enough, but is an approximation nonetheless.</p>

<p>PS: the meaning of the negative result when $r &lt; i$ is left as an exercise to the reader, because it is too late for me
to try to make sense of it.</p>]]></content><author><name></name></author><summary type="html"><![CDATA[You need this much to retire:]]></summary></entry><entry><title type="html">The Retirement Equation</title><link href="https://lvella.github.io/retirement-equation/" rel="alternate" type="text/html" title="The Retirement Equation" /><published>2024-04-07T00:00:00+00:00</published><updated>2024-04-07T00:00:00+00:00</updated><id>https://lvella.github.io/retirement-equation</id><content type="html" xml:base="https://lvella.github.io/retirement-equation/"><![CDATA[<p>One day I wondered: how much money do I need to have in order to retire?</p>

<p>I don’t know if I was bored or something, but instead of googling or writing an Excel spreadsheet (and by Excel, I really mean LibreOffice Calc), I developed a single differential equation to give me the answer. I left it on the side for a while and then lost the piece of paper it was written on. When I found it, I wrote a blog post so I wouldn’t need the paper anymore.</p>

<p>Then I found the equation was wrong. I’m not sure why I initially thought it was right, but it didn’t simplify to the known formula for compound interest, so I took the post down. Then I had an epiphany while sleeping, and figured out what I now think to be the right equation. I am revising this blog post to correct that mistake.</p>

<p>It goes like this: given a time period, let’s say, a year (it works with any time period, you just have to keep it consistent), the inputs are:</p>

<dl>
  <dt>$E$</dt>
  <dd>your yearly expenses.</dd>
  <dt>$j$</dt>
  <dd>the yearly yield factor you can get by investing your money, i.e. $1 + \text{APY}$. E.g. if you can get an investment that gets you 10% per year, then $j = 1 + 10\% = 1.1$.</dd>
  <dt>$k$</dt>
  <dd>the yearly inflation factor; i.e. the same as above, if inflation is $3\%$ per year, then $k = 1.03$.</dd>
</dl>

<p>A note on converting multiplicative factors between different time periods: these factors don’t accumulate by sum, they accumulate by multiplying, so you can’t just multiply or divide, you have to exponentiate or take roots. For instance, imagine you can get $0.7\%$ per month in some investment. To get the annual factor, you start with the monthly factor of $1.007$ and apply it 12 times, $1.007 \times 1.007 \times \ldots \times 1.007$, or, in a more concise way, raise $1.007$ to the 12th power, and you get $1.0873$, or $8.73\%$ per year. If you multiply by 12 you get $8.4\%$, which is an approximation, but not quite right. To convert yearly to monthly you take the 12th root, or raise to $1/12$.</p>

<p>Back to the retirement equation, we can approach it in two ways: as the time $t$ passes, we can either adjust the expenses to the inflation, or we adjust the yield to the inflation. Let’s do the second because it greatly simplifies the differential equation. We introduce a new symbol $J$, the inflation-adjusted yield factor, which can be calculated by dividing the multiplicative investment yield by the multiplicative inflation in the period:</p>

\[J = j / k\]

<p>$J$ is your real gain factor, in today’s currency value. So we won’t be working in literal amount of money, but inflation corrected money to the value of today!</p>

<p>Finally, let’s define the principal as $P$, i.e. the total amount of money you have at a given time.</p>

<p>Now, we want to calculate how $P$ varies with $t$. In the fashion of differential modelling, for every small time increment, $dt$, we want to determine the corresponding change in the principal, $dP$. We are assuming you are retiring from your savings only, i.e. no pension, so there are only two components: your investment returns and your expenses.</p>

<p>The expenses part is easy: it is proportional to the time, so it is just $-E \times dt$. In another words, for some infinitesimal time variation $dt$, you lose a proportional amount of money, scaled by your “fixed” expenses $E$ (“fixed” in a sense of value, because in absolute value it raises with inflation, but this is already considered when we choose to work in today’s value of money).</p>

<p>The tricky part is the yield. We need to find some $f(P) \times dt$ so that this is how much money you get by investing your principal in the very tiny time of $dt$. We can start by taking the derivative of the compound interest formula:</p>

\[C = C(0) \times J^t\]

<p>thus</p>

\[\frac{dC}{dt} = C(0) \times J^t \times \ln(J)\]

\[dC = C(0) \times J^t \times \ln(J) \times dt\]

<p>This is going in the direction we need, we have a rate of change to integrate, but it is not a function of the current principal. We need to decouple this slope from its starting condition, and get it for any instantaneous value of $C$. Fortunately for us, $C(t)$ appears right inside $dC$, and we can substitute:</p>

\[dC = C \times \ln(J) \times dt\]

<p>Now we have the exact money increment $dC$ we gain for every infinitesimal time $dt$, for an instantaneous amount of money $C$. So this must be the same infinitesimal money increment we get for our investment yield component, but in relation to $P$ instead of $C$, as $P$ is our total amount of money: $P \times \ln(J) \times dt$.</p>

<p>Putting everything together, we have:</p>

\[dP = P \ln(J) \, dt - E \, dt\]

<p>If we ask Wolfram Alpha or ChatGPT to solve this for us (because I promptly forgot how to solve differential equations as soon as the course was over), we get:</p>

\[P(t) = K J^t + \frac{E}{\ln(J)}\]

<p>where $K$ is the integration constant.</p>

<p>Now we can ask all kinds of questions to this equation. One of the easiest is: “If I retire now, with $P(0)$ money, how much money will I have after $t$ years?” To answer this, we have to figure out $K$, so we plug $t = 0$, and solve this equation where the only unknown is $K$:</p>

\[P(0) = K J^0 + \frac{E}{\ln(J)}\]

<p>I don’t even need WolframAlpha to see that:</p>

\[K = P(0) - \frac{E}{\ln(J)}\]

<p>then, to calculate $P(t)$, i.e. your principal after living on it for $t$ years, just plug the numbers in the formula:</p>

\[P(t) = \frac{E}{\ln(J)} + \left(P(0) - \frac{E}{\ln(J)}\right) J^t\]

<p>or, if you prefer in a form that resembles the compound interest formula:</p>

\[P(t) = P(0) J^t - E \frac{J^t - 1}{\ln(J)}\]

<p>Example: I have ¥ 54,321 in a liquid investment with an inflation-corrected APY of $6\%$. My expenses are ¥ 4,444 per year. I live off this money. How much, in today’s ¥, corrected by inflation, will I have after 5 years? Well, just plug the numbers. The time scale (year, week) doesn’t matter, as long as all values are given over the same time scale. Obviously, the currency doesn’t matter either.</p>

\[P(5) = 54321 \times 1.06^5 - 4444 \times \frac{1.06^5 - 1}{\ln(1.06)} \approx 46898.27\]

<p>The answer turns out to be ¥ 46,898.27. With this starting value, and keeping my inflation-adjusted expenses fixed, which theoretically would give me the same living standards, I would have a limited amount of time until I had to un-retire (or be dead). This is always the case when the investment yield is not enough to cover both the expenses and the inflation (i.e. from our ODE, when $P(0) \ln(J) &lt; E$, as $P \ln(J) \, dt$ is the gain component and $E \, dt$ is the expense component).</p>

<p>We can easily figure out how long I have left until I run out of money, or, in our equation terms, $P(t) = 0$:</p>

\[54321 \times 1.06^t - 4444 \times \frac{1.06^t - 1}{\ln(1.06)} = 0\]

<p>Solve it for $t$, and you should agree with ChatGPT, who used sympy to figure out I have at most 21.38 years until I have to un-retire. Out of curiosity, this is the Python code it used:</p>

<div class="language-python highlighter-rouge"><div class="highlight"><pre class="highlight"><code><span class="kn">from</span> <span class="nn">sympy</span> <span class="kn">import</span> <span class="n">symbols</span><span class="p">,</span> <span class="n">log</span><span class="p">,</span> <span class="n">solve</span>

<span class="c1"># Define the symbols
</span><span class="n">J</span><span class="p">,</span> <span class="n">P0</span><span class="p">,</span> <span class="n">E</span><span class="p">,</span> <span class="n">t</span> <span class="o">=</span> <span class="n">symbols</span><span class="p">(</span><span class="s">'J P0 E t'</span><span class="p">)</span>

<span class="c1"># Define the expression
</span><span class="n">expr</span> <span class="o">=</span> <span class="n">P0</span> <span class="o">*</span> <span class="n">J</span><span class="o">**</span><span class="n">t</span> <span class="o">-</span> <span class="p">(</span><span class="n">E</span> <span class="o">*</span> <span class="p">(</span><span class="n">J</span><span class="o">**</span><span class="n">t</span> <span class="o">-</span> <span class="mi">1</span><span class="p">))</span><span class="o">/</span><span class="n">log</span><span class="p">(</span><span class="n">J</span><span class="p">)</span>

<span class="c1"># Values given
</span><span class="n">P0_val</span> <span class="o">=</span> <span class="mi">54321</span>
<span class="n">E_val</span> <span class="o">=</span> <span class="mi">4444</span>
<span class="n">J_val</span> <span class="o">=</span> <span class="mf">1.06</span>

<span class="c1"># Substitute the values into the expression
</span><span class="n">expr_substituted</span> <span class="o">=</span> <span class="n">expr</span><span class="p">.</span><span class="n">subs</span><span class="p">({</span><span class="n">P0</span><span class="p">:</span> <span class="n">P0_val</span><span class="p">,</span> <span class="n">E</span><span class="p">:</span> <span class="n">E_val</span><span class="p">,</span> <span class="n">J</span><span class="p">:</span> <span class="n">J_val</span><span class="p">})</span>

<span class="c1"># Solve for t when the expression equals zero
</span><span class="n">t_solution</span> <span class="o">=</span> <span class="n">solve</span><span class="p">(</span><span class="n">expr_substituted</span><span class="p">,</span> <span class="n">t</span><span class="p">)</span>
<span class="k">print</span><span class="p">(</span><span class="n">t_solution</span><span class="p">)</span>
</code></pre></div></div>

<p>But what about my original question? My inflation-adjusted APY is still $6\%$, but I plan to live more 52 years, and I want to live my best life, live well, so I still have the yearly expenses of ¥ 4,444, in current ¥, and I plan to keep increasing it with the inflation. How much money do I have to have in order to retire? Or, in another words, what must be $P(0)$ so that $P(52) = 0$?</p>

<p>Well, the equation to solve is:</p>

\[P(52) = P(0) \times 1.06^{52} - 4444 \times \frac{1.06^{52} - 1}{\ln(1.06)} = 0\]

<p>Using sympy to solve this, I found that $P(0) = 72582.13$, thus I have to amass the incredible sum of ¥ 72,582.13 in order to retire.</p>

<p>That is it! Problem solved!</p>

<p>But there are some flaws in this model. The first one is that it is a continuous approximation to a discrete process, because real expenses and investment yields are discrete events. Nevertheless, given the stated premises, I believe this to be a reasonably accurate average description.</p>

<p>Another problem is that the premises are too simple. It doesn’t take into consideration taxes, pensions, health expenses that tend to increase with age, and possibly many more factors that may apply to a particular situation. If you really want to use a differential equation for your retirement (instead of, say, Excel (LibreOffice Calc, really)), you may need to adapt it to your specific circumstances.</p>

<p>But the real problem of this or any other model is that we can’t predict the future. This model is based on a fixed inflation, fixed APY, fixed expenses, fixed date of death, etc, but we can’t really know or control any of those things (except maybe date of death, if you are not dead by then already).</p>

<p>Such a model can still be useful, though, but you would have to once in a while plug in the numbers with the best available data, and correct course by either adjusting your expenses or finding a job before you are too old for it.</p>

<p><em>originally posted on the old blog</em></p>]]></content><author><name></name></author><summary type="html"><![CDATA[One day I wondered: how much money do I need to have in order to retire?]]></summary></entry><entry><title type="html">Ficha de D&amp;amp;D 3.5 em Português (Devir)</title><link href="https://lvella.github.io/ficha-dnd-3.5/" rel="alternate" type="text/html" title="Ficha de D&amp;amp;D 3.5 em Português (Devir)" /><published>2015-01-11T00:00:00+00:00</published><updated>2015-01-11T00:00:00+00:00</updated><id>https://lvella.github.io/ficha-dnd-3.5</id><content type="html" xml:base="https://lvella.github.io/ficha-dnd-3.5/"><![CDATA[<p>Cansado de baixar aquela porcaria de ficha que a Devir disponibilizou em seu site junto com a publicação do D&amp;D 3.5? Aquela com marcas de corte nas bordas para a gráfica? Aquela, que quando você imprime, a ficha aparece encolhida no meio da página?</p>

<p>Seus problemas acabaram! Aqui está a mesma ficha em PDF, só que com página A4 e sem as marcas de corte. Perfeita para você que vai imprimi-la em casa, e não numa gráfica:</p>

<p><a href="/assets/posts/ficha-dnd-3.5/dnd_35_boa.pdf">Ficha D&amp;D 3.5 boa</a></p>

<p><em>postado originalmente no blog antigo</em></p>]]></content><author><name></name></author><summary type="html"><![CDATA[Cansado de baixar aquela porcaria de ficha que a Devir disponibilizou em seu site junto com a publicação do D&amp;D 3.5? Aquela com marcas de corte nas bordas para a gráfica? Aquela, que quando você imprime, a ficha aparece encolhida no meio da página?]]></summary></entry><entry><title type="html">Announcing libestream</title><link href="https://lvella.github.io/announcing-libestream/" rel="alternate" type="text/html" title="Announcing libestream" /><published>2013-05-10T00:00:00+00:00</published><updated>2013-05-10T00:00:00+00:00</updated><id>https://lvella.github.io/announcing-libestream</id><content type="html" xml:base="https://lvella.github.io/announcing-libestream/"><![CDATA[<p>Block ciphers, like AES, are not the best thing around for secure communication, for they require an <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Block_cipher_mode_of_operation">mode of operation</a> in order to be properly used — which adds complexity, thus is itself a source of problems, see, for instance, the <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Transport_Layer_Security#BEAST_attack">BEAST attack</a>. Also, block ciphers are designed with reversibility guarantees that makes their execution cost very high compared to specialized solutions for communication: the stream ciphers.</p>

<p>But the only stream cipher algorithm in widespread adoption by 2013, called RC4, is old and broken in many ways. Due to its weakness, WEP WiFi protection is broken. While many cryptosystems relies on it for security, RC4’s shortcomings are rendering these systems increasingly fragile, specially due to its recent surge of popularity when people could not count on AES on SSL anymore due to BEAST attack, exposing RC4 to even more cryptanalysis.</p>

<p>To offer an alternative to RC4, European Union’s <a href="http://www.ecrypt.eu.org/">ECRYPT</a> launched the <a href="http://www.ecrypt.eu.org/stream/">eSTREAM</a> project in create/find, analyze and select the next generation of stream ciphers suitable for widespread adoption. The project was concluded in 2008 and recommended 4 stream cipher algorithms suitable to be implemented efficiently in software: HC-128, Rabbit, Salsa20/12 and Sosemanuk.</p>

<p>Despite the time since initial publication of eSTREAM, their adoption goes at very slow pace, with very few implementations besides the reference one. In a modest attempt to encourage the adoption and facilitate the usage of these algorithms, I have developed <a href="http://github.com/lvella/libestream">libestream</a>. It is a <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Free_software">free</a> pure C library featuring all the eSTREAM software profile algorithms written from ground up based on the specifications. It provides a clean interface directly to the algorithms output and a more general interface that buffers their outputs and apply sequentially to stream chunks of any size.</p>

<p>It also features, for sake of completeness, a partial implementation of <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/UMAC">UMAC</a>, a <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Message_authentication_code">message authentication code (MAC)</a> algorithm, that together with any of the ciphers are sufficient to sign/authenticate the chunks of (or the whole of it) encrypted stream, considering that stream ciphered messages should not be transmitted without a secure authentication method.</p>

<p><em>originally posted on the old blog</em></p>]]></content><author><name></name></author><summary type="html"><![CDATA[Block ciphers, like AES, are not the best thing around for secure communication, for they require an mode of operation in order to be properly used — which adds complexity, thus is itself a source of problems, see, for instance, the BEAST attack. Also, block ciphers are designed with reversibility guarantees that makes their execution cost very high compared to specialized solutions for communication: the stream ciphers.]]></summary></entry><entry><title type="html">Anunciando a libestream</title><link href="https://lvella.github.io/anunciando-a-libestream/" rel="alternate" type="text/html" title="Anunciando a libestream" /><published>2013-05-07T00:00:00+00:00</published><updated>2013-05-07T00:00:00+00:00</updated><id>https://lvella.github.io/anunciando-a-libestream</id><content type="html" xml:base="https://lvella.github.io/anunciando-a-libestream/"><![CDATA[<p>O algoritmo de criptografia mais importante da atualidade, o AES (<em>Advanced Encryption Standard</em>), também conhecido como Rijndael, faz parte de uma categoria chamada de cifradores de bloco. Eles têm esse nome porque operam sobre conjuntos de dados de tamanho fixo: os blocos. Cada bloco — de 128 bits cada, no caso do AES — é cifrado/decifrado individualmente com uma chave secreta. Cada 128 bits gerados pelo processo de cifragem pode ser revertido a 128 bits do texto original usando-se a mesma chave no processo de decifragem.</p>

<p>Da natureza dos cifradores de bloco deriva-se um problema imediato: e se as mensagens forem maiores que o tamanho do bloco? Com frequência, o que deve ser cifrado é maior que 128 bits, então viu-se a necessidade de se definir os modos de operação, como o CBC (<em>cipher-block chaining</em>) ou o CTR (<em>counter</em>). Ao contrário do que pode parecer a princípio, simplesmente dividir a mensagem em pedaços de 128 bits e cifrar cada um separadamente (modo de operação ECB, <em>electronic codebook</em>) não é uma boa ideia: toda a vez que um mesmo pedaço da mensagem é cifrado com a mesma chave, o resultado é o mesmo padrão de bits, o que pode revelar a ocorrência de padrões repetidos dentro da mensagem original.</p>

<p>Os outros modos de operação resolvem esse problema, ou encadeando de alguma forma os blocos, como faz o CBC, propagando a entropia dos blocos anteriores e ocultando qualquer tipo padrão, ou o modo CTR, que transforma o cifrador de blocos efetivamente em um cifrador de fluxo, onde este é utilizado para gerar uma sequência de bits arbitrariamente grande, aparentemente aleatória, de distribuição estatística normal, que quando aplicado com uma função reversível à mensagem (como a KGB fazia com os <em>one-time pad</em>) a oculta até que a operação inversa seja feita.</p>

<p>Acontece que muita gente usa o AES no modo CTR, um algoritmo grande e complexo, feito para operar em blocos e com garantia de reversibilidade, simplesmente para imitar um cifrador de fluxo, que são algoritmos muito mais simples e rápidos de se computar, especificamente desenvolvidos para operar desta maneira.</p>

<p>O mais conhecido dos cifradores de fluxo é o RC4, um algoritmo extremamente simples, porém antigo e com várias falhas de segurança (falhas estas que permite que redes WiFi protegidas por WEB sejam facilmente invadidas, por exemplo), mas que em muitas situações acaba sendo utilizado por falta de alternativas. Isso acontece na própria Web, nas conexões seguras HTTPS, seja por questões de performance (cifradores de bloco são mais lentos e complexos) ou por causa da falha que encontraram no modo de operação do SSL/TLS (que afeta o AES, por ser um cifrador de bloco, tornando-o inseguro), muitos sites ainda utilizam o RC4, inclusive os maiores (Goolgle, Facebook, WordPress e Wikipedia incluídos, bem como muitos bancos), já que ele é o único cifrador de fluxo disponível nesse tipo de conexão.</p>

<p>Mas o RC4 não é o único desta família de algoritmos de criptografia. A exemplo do que foi a competição do AES, que selecionou o Rijndael e o tornou o mais usado algoritmo de cifragem de blocos do mundo, uma outra competição, chamada <a href="http://www.ecrypt.eu.org/stream/" title="eSTREAM">eSTREAM</a>, realizado de 2006 a 2008 por um órgão da União Européia, teve por objetivo avaliar, selecionar e recomendar para o mundo os melhores cifradores de fluxo disponíveis. Essa competição teve quatro vencedores na categoria software (isto é, excelente performance quando implementados em software): Rabbit, HC-128, Salsa20/12 e Sosemanuk.</p>

<p>Numa modesta tentativa de divulgar, incentivar e facilitar o uso destes algoritmos em detrimento do RC4, que é fraco, e, onde cabível, do AES, que é lento e complexo — e complexidade deve ser levada em consideração: a necessidade de se usar um modo de operação custou a segurança dos cifradores de bloco no SSL e na Web — eu desenvolvi a biblioteca <a href="http://github.com/lvella/libestream" title="libestream">libestream</a>.</p>

<p>Libestream é uma pequena biblioteca de software que implementa, sob domínio público (e portanto, software livre), em C portável, os quatro algoritmos selecionados pelo eSTREAM na categoria software, além do algoritmo <a href="http://tools.ietf.org/html/rfc4418" title="UMAC">UMAC</a> para autenticação de mensagem, necessário a qualquer sistema de criptografia para garantir a integridade da mensagem, mas especialmente importante no caso de cifragem de fluxo, que é particularmente suscetível a falsificações.</p>

<p>Com isso, espero prover um conjunto mínimo e auto-contido de ferramentas suficientes para se desenvolver sistemas criptográficos baseados em cifragem de stream. Mas se isso for trabalho demais e você só quiser se comunicar com segurança via sockets TCP, a biblioteca ainda oferece um protocolo simples, pronto para usar, que cuida de cifrar, assinar, decifrar e verificar as mensagens para você.</p>

<p><em>postado originalmente no blog antigo</em></p>]]></content><author><name></name></author><summary type="html"><![CDATA[O algoritmo de criptografia mais importante da atualidade, o AES (Advanced Encryption Standard), também conhecido como Rijndael, faz parte de uma categoria chamada de cifradores de bloco. Eles têm esse nome porque operam sobre conjuntos de dados de tamanho fixo: os blocos. Cada bloco — de 128 bits cada, no caso do AES — é cifrado/decifrado individualmente com uma chave secreta. Cada 128 bits gerados pelo processo de cifragem pode ser revertido a 128 bits do texto original usando-se a mesma chave no processo de decifragem.]]></summary></entry><entry><title type="html">Income Right: o Copyright melhorado</title><link href="https://lvella.github.io/income-right-o-copyright-melhorado/" rel="alternate" type="text/html" title="Income Right: o Copyright melhorado" /><published>2013-03-21T00:00:00+00:00</published><updated>2013-03-21T00:00:00+00:00</updated><id>https://lvella.github.io/income-right-o-copyright-melhorado</id><content type="html" xml:base="https://lvella.github.io/income-right-o-copyright-melhorado/"><![CDATA[<p>Essa é uma ideia que eu tenho a muito tempo sobre a distribuição das “obras intelectuais protegidas” (esse é o termo usado na lei nº 9.610, dos direitos autorais), mas que eu nunca vi expressa dessa forma, e que poderia ser uma solução interessante para a legalização da pirataria.</p>

<p>As leis de direito autoral variam pelo mundo; no Brasil, além do direito de cópia (“copyright”, em inglês) que existe em todas, a lei prevê os direitos morais do autor, que dá o direito legal à pessoa física do autor de ser reconhecido pela sua obra, não importa se a pessoa foi contratada ou não para realizar o trabalho, ou de quem detém os direitos de cópia e distribuição. Isso é um avanço que existe em nosso país e em alguns outros pelo mundo.</p>

<p>O princípio moral de que o autor tem o direito inalienável de ser reconhecido por sua obra não possui nenhum fundamento comercial ou financeiro, mas é aceito pelas pelas pessoas e, portanto, não deixa de ser um direito devidamente legalizado.</p>

<p>Também é totalmente aceito pelas pessoas o princípio moral de que os autores devam ser pagos por sua obra, fruto de seu trabalho e esforço. Daí deriva o direito de cópia previsto em Lei. Mesmo muitos piratas se vêm em situação não conseguir refutar totalmente esse princípio moral: existem vários argumentos contra, mas nenhum ataca essencialmente o ponto de que existem autores que trabalham arduamente em suas obras, não são ricos, precisam da sua receita como autores para sobreviver, e têm o direito de serem pagos por suas obras. Quando nós pirateamos Harry Potter, e nos preocupamos em explicar moralmente nossas ações, nós nos limitamos a dizer: “a Warner e a J. K. Rowling já são ricos o suficiente, não precisam de mais dinheiro”.</p>

<p>Bem, daí que eu trago mais um princípio moral comumente aceito, e que deveria, também, ser defendido pela Lei, mas não o é: o direito da sociedade de ter acesso irrestrito à cultura e informação. Toda e qualquer pessoa no planeta deveria ter direito irrestrito a qualquer livro, filme, desenho, peça de teatro, artigo científico, música, etc, que já tenha sido feito público um dia. Esse é o sentido da palavra “publicar”: dar ao conhecimento público, não restringir seu acesso, mas o contrário, encorajá-lo.</p>

<p>E o que temos hoje? Quando alguma obra intelectual é publicada, o que chega a nós, público? Livros de luxo superfaturados, livros esgotados, livros difíceis de conseguir, filmes que já saíram a um tempão em outros países mas que só chegaram aqui agora, filmes guardados em rolos na Cinemateca Brasileira que só quem tem um cinema devidamente equipado e recursos necessários para ir até lá retirar o rolo que podem assistir, discos de filmes com restrições geográficas para reprodução, discos de filmes e música que custam 50 centavos para serem produzidos mas são vendidos 100 vezes mais caros, e um caminhão de atrocidades do tipo que só a escassez artificial desses produtos poderia produzir.</p>

<p>E enquanto o copirraite deveria proteger a módica receita financeira do autor, ela cria a escassez artificial que restringe nosso acesso à cultura e informação e dá superpoderes às grandes organizações que controlam a indústria cultural e de publicações científicas. Escassez é um termo chave na economia; ela é um fator determinante no valor das coisas materiais. O exemplo clássico é o do diamante: se este fosse tão comum quanto areia, valeria tanto quanto vidro, mas como é raro, é caro. Mas o que aconteceria se todo mundo pudesse, ao pegar um diamante, duplicá-lo, de modo que a cópia fosse indistinguível do original? Quanto tempo demoraria para que qualquer um pudesse ter quanto diamante quisesse? Existiria escassez real de diamante?</p>

<p>O que eu chamo de “escassez artificial” se contrapõe com a escassez real que existe com diamante, comida, água, e praticamente tudo que é material: se tomarem de você, você fica sem. Já nas obras do intelecto, esta limitação é quase anulada pela tecnologia: custa muito pouco copiar um DVD ou uma foto digital, e a cada cópia feita, uma outra pessoa poderá se beneficiar da obra. Não há escassez intrínseca: podem ser criados quantos forem necessários, não há limitação natural para isso. Daí vem o copirraite para impor artificialmente essa limitação: só o autor ou aqueles por ele autorizado podem copiar, do contrário, terão de se ver com a Lei.</p>

<p>A proposta padrão do Partido Pirata inclui: diminuição do prazo de validade do copirraite e legalização da cópia sem fins lucrativos. Minha proposta é um pouco diferente, mas acredito ser mais fundamental: proibir explicitamente o controle artificial sobre a distribuição das produções e deixar o livre mercado agir. Basicamente, o “copyright” se tornaria um “income right”, o autor (ou qualquer um para quem ele tenha vendido os direitos comerciais) não teriam nenhum direito de restringir a cópia e distribuição de suas produções, mas por outro lado, se alguém o fizesse comercialmente, deveria pagar uma fração (predeterminada na lei) de seu lucro por unidade vendida ao detentor do direito comercial. Naturalmente, se a cópia ou distribuição fosse feita de graça, o autor não teria nada a receber, e a prática seria perfeitamente legal.</p>

<p>Desta maneira, o trabalho de distribuição seria uma atividade econômica separada, viável, regida pelas leis de mercado da oferta e da procura, totalmente dissociada do processo criativo. Qualquer editora ou gráfica poderia legalmente produzir e vender edições econômicas em papel mais barato de best-sellers caros em edições luxuosas. Qualquer distribuidora poderia distribuir o filme de qualquer estúdio. Serviços de distribuição online poderiam surgir e seriam restritos apenas pela sua qualidade.</p>

<p>O consumidor final pagaria pela conveniência do meio em que a obra foi distribuída, e não pelo preço arbitrariamente determinado pelo único autor. Há de se convir de que “file-sharing” não é um meio muito acessível para a maioria das pessoas; frequentemente é mais fácil pegar o filme na locadora, ou comprar o DVD copiado de algum camelô na rua (que a propósito, teria sua atividade legalizada, contanto que pagasse a parte devida ao autor). Legalizar somente a cópia sem fins lucrativos resolveria apenas parcialmente o problema, enquanto que legalizar a atividade comercial de piratas locais, conquanto os autores sejam devidamente compensados, tem uma abrangência social muito maior.</p>

<p>Não é uma questão de somente poder baixar as coisas por torrent, é uma questão de facilitar o acesso para qualquer um que queira ter acesso, mesmo que essa pessoa nem computador tenha. É uma questão de dar a milhares (milhões?) de obras que estão mortas e enterradas no anonimato o direito de serem publicadas por qualquer um que ache que elas valham o esforço, não importando o interesse e motivações do autor (que pode nem estar vivo).</p>

<p><em>postado originalmente no blog antigo</em></p>]]></content><author><name></name></author><summary type="html"><![CDATA[Essa é uma ideia que eu tenho a muito tempo sobre a distribuição das “obras intelectuais protegidas” (esse é o termo usado na lei nº 9.610, dos direitos autorais), mas que eu nunca vi expressa dessa forma, e que poderia ser uma solução interessante para a legalização da pirataria.]]></summary></entry><entry><title type="html">Amigos de Bolso™ contra o Bitcoin</title><link href="https://lvella.github.io/amigos-de-bolso-contra-o-bitcoin/" rel="alternate" type="text/html" title="Amigos de Bolso™ contra o Bitcoin" /><published>2013-01-06T00:00:00+00:00</published><updated>2013-01-06T00:00:00+00:00</updated><id>https://lvella.github.io/amigos-de-bolso-contra-o-bitcoin</id><content type="html" xml:base="https://lvella.github.io/amigos-de-bolso-contra-o-bitcoin/"><![CDATA[<p>Após um Amigo de Bolso™ do Izzy me apontar o link <a href="http://hbdia.com/dossie-hbd/dossie-hbd-bitcoins-a-moeda-do-futuro-no-presente-e-so-uma-piada-mesmo/" title="[ Dossiê HBD ] Bitcoins, a moeda do futuro (no presente é só uma piada mesmo)">[ Dossiê HBD ] Bitcoins, a moeda do futuro (no presente é só uma piada mesmo)</a>, por ser de tantas maneiras impreciso e tendencioso, resolvi publicamente discordar e replicar nos pontos pertinentes.</p>

<p>Sendo um conhecedor do Bitcoin, logo na introdução do artigo fiquei sem entender as alusões do tipo “pífia e juvenil tentativa”, “célebre motivo de chacota” e “lorota financeira comparável a Herbalife”. A alusão a lorota financeira se fez claro mais abaixo quando o autor descreveu sua visão sobre o tema, bem como a “chacota”, já “pífia”, “juvenil” ficaram injustificados, principalmente pelo fato de o próprio autor ter admitido a importância do Bitcoin para atividades ilícitas. Pode não ser idônea, mas de maneira alguma é “pífia” ou “juvenil”.</p>

<h3 id="o-que-é-bitcoin">O que é Bitcoin?</h3>

<p>Um erro menor do autor nessa seção foi dizer que Bitcoin é uma moeda “criptografada”. Nada no protocolo do Bitcoin é criptografado, nem há nenhuma necessidade implícita de criptografia para seu uso e funcionamento. Entretanto é uma prática comum para os possuidores de Bitcoin criptografarem sua carteira para impedir acesso indevido, exatamente da mesma maneira que criptografamos arquivos importantes, comunicações de email e transações bancárias, o que portanto não justificaria chamar a moeda de “criptografada”.</p>

<p>Mas o erro principal foi outro: implicar que o criador do Bitcoin tivesse objetivos conspiratórios ocultos aos criar a moeda, sem levar em conta o adjetivo correto que deveria ter sido usado em lugar de “criptografada”: “distribuida”. Bitcoin é acima de tudo, uma moeda distribuída, sem nenhuma autoridade central, sem nenhum controlador implícito ou explícito. Toda a infraestrutura de software que possibilita seu funcionamento é livre, modificável e aberto para auditoria. O que evita fraudes é o consenso gerado pela rede Bitcoin, ninguém ou nenhuma instalação especial de software ou servidores tem autoridade para ditar os rumos da moeda, criá-las espontaneamente ou alterar seu valor. Nem o criador, nem ninguém. O processo de funcionamento das Bitcoins é completamente aberto, auditável e consensual; não tem ponto central.</p>

<p>Não importa os objetivos do criador do Bitcoin, porque ele não tem mais nenhum controle sobre a moeda. Ela foi criada para ser incontrolável, e só ganhou popularidade por isso: não foi um cara que disse “ela não está sujeita a ninguém, confiem em mim”, foi que cada indivíduo que analisou a fundo seu processo de funcionamento e acreditou, atestou que assim o era (e ainda hoje mais e mais pessoas o fazem e o atestam).</p>

<h3 id="como-as-bitcoins-não-funcionam">Como as bitcoins (não) funcionam?</h3>

<p>Essa foi a sessão mais errada e distorcida de todo o artigo, e de certo modo justifica a visão do autor de “lorota financeira comparável a Herbalife” sobre o Bitcoin.</p>

<p>Explicando realmente como as Bitcoins funcionam: você tem Bitcoins em sua carteira, que pode ser um programa no seu computador ou uma conta em alguns dos sites que oferecem serviço de carteira Bitcoin. Lá estão armazenadas suas Bitcoins. Quando você quiser pagar por algum bem ou serviço, você coloca o endereço do destinatário, digita o valor a ser enviado, e clica para enviar a transação pela Internet. Dentro de alguns minutos sua transação será validada e confirmada pela rede.</p>

<p>No caso inverso, você tem dinheiro a receber, você clica em um botão na sua carteira para gerar um endereço de pagamento (um código do tipo <code class="language-plaintext highlighter-rouge">13bbGCsjo5RrByDdQovxLwhquzDyTbHG7Q</code>) que você envia ao seu pagador para que ele possa efetuar a transação.</p>

<p>Simples assim.</p>

<p>Agora, realmente existe o processo de mineração de Bitcoin como mencionado no artigo do Izzy, mas dizer que “você baixa o software oficial da parada e a roda no seu computador. Dependendo da potência do mesmo […] você vai ganhar algumas frações de bitcoins após rodar o aplicativo por algumas horas” é tão preciso quanto dizer “existe um metal que vale muito dinheiro chamado ouro e tem ele enterrado. Funciona assim, você pega uma picareta e cavuca a terra, e algumas horas depois você acha alguns microgramas de ouro”.</p>

<p>Ainda tem um erro menor nessa afirmação, que diz que o software tem que ser o “oficial”, decorrente da mentalidade de que o Bitcoin é um esquema fraudulento controlado por algum grupo restrito de pessoas. O processo de mineração de Bitcoin foi criado de modo a ser matematicamente garantido de ser difícil, e portanto dar valor à moeda (lei econômica: quanto mais raro, mais caro). O processo utiliza um algoritmo padrão para este propósito, o SHA-256, projetado pela <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/NSA" title="NSA">NSA</a>. Por ser um algoritmo muito comum e conhecido (eu o aprendi pela Wikipédia), é relativamente fácil escrever um minerador, e existem dezenas deles, com zilhões de funcionalidades e propósitos específicos. Se você for se aventurar a minerar, o último que você vai querer é o “oficial” (o primeiro minerador feito; chamá-lo de lento é bondade, ele é completamente inútil na economia atual do Bitcoin).</p>

<p>O processo de minerar Bitcoin é oneroso por causa do hardware necessário, barulho e calor gerados, energia consumida (e poluição gerada, dependendo da fonte dessa energia). Acreditar que vai ganhar dinheiro fácil com isso é igual acreditar que você vai ficar rico se pegar sua picareta e ir para alguma corrida do ouro na Amazônia junto com mais zilhões de pessoas que tiveram a mesma ideia, e montam aqueles acampamentos de mineiros cheios de miséria e prostituição que as vezes passam na Globo. Minerar Bitcoin não funciona assim, exige planejamento, recursos, e as contas na ponta do lápis, e isso é facilmente visível para qualquer um que não acredite em esquemas de pirâmide. Aparentemente a ira do Izzy vem do fato de isso não ser nenhuma fonte mágica de dinheiro, como ele talvez um dia quis acreditar que fosse, e agora sai atacando.</p>

<p>De fato, pela inexorável mão invisível do nosso amigo Adam Smith, mineração de Bitcoin nunca poderá ser uma atividade mais que muito pouco rentável, por que quanto mais gente tiver minerando, mais difícil fica, atingindo um ponto de equilíbrio onde só é rentável o suficiente quando gente suficiente desiste por acreditar que não vale a pena o esforço. Certamente para mim não vale o esforço de sair numa corrida do ouro, e para muita gente não vale o de minerar Bitcoin.</p>

<p>Como apontado no artigo, é verdade que a moeda é muito instável e tem grandes variações de preço, por isso é considerada um investimento de alto risco para especuladores (se se pode ganhar muito, se pode perder muito), mas isso é devido à sua idade e seu relativamente baixo volume de utilização.</p>

<h3 id="pera-um-ex-site-de-magic-é-o-banco-central-dessa-parada-isso-não-me-parece-muito-seguro">Pera, um ex-site de Magic é o “Banco Central” dessa parada? Isso não me parece muito seguro.</h3>

<p>O Mt.Gox não chega nem de perto a ser o “Banco Central” do Bitcoin, pois a função do Banco Central é emitir e controlar artificialmente o preço da moeda, e isso não existe no Bitcoin. O Mt.Gox está mais para a NASDAQ do Bitcoin, pois é a maior bolsa de valores que negocia a moeda.</p>

<p>E sim, é insegura, volta e meia vemos sites que lidam com grandes quantidades de Bitcoins são invadidos e roubados, ou então os dados são perdidos. Infelizmente isso é uma limitação do Bitcoin como um conceito novo com somente 3 anos e poucos de existência: as instituições que lidam com os valores não estão acostumados com a segurança e procedimentos exigidos na atividade financeira, e não adotam procedimentos de segurança desenvolvido a duras penas ao longo dos anos pelas instituições financeiras convencionais. Essa falha não é inerente da moeda em si. A revista Forbes já apontou estes aspectos da segurança do Bitcoin, e também já foi <a href="http://bitcoinmagazine.com/bitcoin-is-uninsured-a-misconception/">rebatido</a>.</p>

<p>O mais interessante é ver o autor acusar e desconfiar das instituições que lidam com Bitcoins, e principalmente explica o aspecto da “chacota” mencionada na introdução. Aparentemente, por não serem grandes e super poderosas corporações como os bancos internacionais (que já quebraram o mundo mais de uma vez) que estão por trás do Bitcoin, mas sim sites simples, evoluídos de mercado de trocas de cartas de Magic, e pessoas simples e normais com os quais nos identificamos que estão lucrando com o Bitcoin, o autor ataca, faz chacota e acusa de má fé e corrupção essas pessoas, quase como se tivesse inveja, e quisesse ele ter tido a ideia e lucrado com o Bitcoin antes/no lugar deles.</p>

<p>A própria acusação de corrupção contra o sujeito Bruce Wagner (que eu nunca tinha ouvido falar, e não tem a menor importância na economia e continuada utilização do Bitcoin) referencia um site dedicado a chacotas sobre o Bitcoin, o <a href="http://buttcoin.org/" title="ButtCoin">ButtCoin</a>, que a propósito, foi encerrado aparentemente por falta de ibope.</p>

<p>Quanto a afirmação de que o Banco Central Europeu diz que o Bitcoin tem semelhanças com esquemas de pirâmide, é simplesmente falso. Segue o único trecho que a palavra “pyramid” é mencionada:</p>

<blockquote>
  <p>“Therefore, although the current knowledge base does not make it easy to assess whether or not the Bitcoin system actually works like a pyramid or Ponzi scheme, it can justifiably be stated that Bitcoin is a high-risk system for its users from a financial perspective, and that it could collapse if people try to get out of the system and are not able to do so because of its illiquidity.”</p>
</blockquote>

<p>Preguiça de traduzir à parte, o trecho justifica o quão arriscado pode ser para uma pessoa se meter com Bitcoin sem entender como ele realmente funciona (opinião de um Banco Central; claro que muita gente que já se fudeu por causa de um banco convencional poderia dizer a mesma coisa sobre eles), mas diz explicitamente que eles não tem nenhuma dado para considerar o Bitcoin como um esquema de pirâmide; é quase o oposto do que o Izzy falou. Ele só levanta a possibilidade de, caso as pessoas desacreditem do Bitcoin e não queiram mais comprá-lo, você não poderá mais vender o que você tem por dinheiro convencional. O mesmo risco que os investidores de ações correm caso todo mundo ache que as ações da Petrobrás não tem mais valor e param de querer comprá-la.</p>

<h3 id="mas-izzy-um-broder-meu-que-manja-dessas-coisas-e-é-super-politizado-falou-que-a-vantagem-do-bitcoin-é-que-ao-contrário-de-moedas-fiat-ele-não-desvaloriza-e-não-inflaciona-o-valor-dele-só-sobe">Mas Izzy, um broder meu que manja dessas coisas e é super politizado falou que a vantagem do bitcoin é que, ao contrário de moedas fiat, ele não desvaloriza e não inflaciona, o valor dele só sobe!</h3>

<p>Dãã! É claro que o valor flutua, como o de qualquer ativo negociável que não seja uma bomba relógio em viés de explodir! Lembram do <a href="http://ofogareu.blogspot.com.br/2012/05/avestruz-master-um-produto.html">Avestruz Master</a>?</p>

<p>O sentido real dessa frase vem do fato da moeda ser por natureza deflacionária, o que significa que, a longo prazo, se a atividade econômica em torno da moeda aumentar, seu preço só pode subir, porque não tem ninguém com poder para emitir mais Bitcoins para compensar o crescimento da economia. Isso se dá por que a moeda foi planejada para ter uma taxa de produção decrescente, ou seja, a quantidade de Bitcoins produzidas vai diminuir até parar de ser produzida, e só re-circular o que já existe. Isso não tem nada a ver com as flutuações locais dentro de uma bolsa de valores.</p>

<h3 id="você-mencionou-que-é-difícil-mineirar-bitcoins-explique-isso-melhor">Você mencionou que é difícil mineirar bitcoins. Explique isso melhor.</h3>

<p>Só corrobora o que eu falei sobre Bitcoin não funcionar como a seção <strong>Como as bitcoins (não) funcionam?</strong> do artigo original alegar: não é pra qualquer um mineirar. Até o os primeiros hardwares dedicados à mineração de Bitcoin começarem a ser entregues, que diminuiriam o consumo de energia em ordens de magnitude, o calor gerado é um efeito colateral indesejado que as pessoas tentam aproveitar.</p>

<p>E em quantas situações energia elétrica não é queimada para simplesmente se produzir calor? Ferro de passar, chuveiro elétrico, forno elétrico e aquecedor de ambiente em locais frios, etc. Claro que para o autor essas situações onde o calor da mineração de Bitcoin é aproveitado em lugar de se queimar a mesma quantidade de energia e não produzir nada não passa de chacota. Mas considero montar essas engenhocas um hobby muito mais interessante do que, por exemplo, rebaixar carro, por luz de neon em baixo, um som gigante no porta malas e sair perturbando a paz pela cidade (só para citar um hobby geralmente reprovável).</p>

<h3 id="mas-sr-izzy-a-nobre-se-isso-é-uma-merda-qual-a-real-utilidade-das-bitcoins">Mas Sr. Izzy A. Nobre, se isso é uma merda, qual a real utilidade das bitcoins?</h3>

<p>Bitcoin tem sim seu grande atrativo para atividades ilícitas por ser anônimo. “Quase anonimidade” é uma afirmação meio fraca sem prova ou confirmações de casos em que pessoas são rastreadas através do Bitcoin. O usuário pode ter quantas carteiras Bitcoin quiser, cada uma com quantos endereços, sem relação um com o outro, quiser. E as carteiras e os endereços podem ser criados à vontade, offline no próprio computador, ninguém tem o controle sobre isso. Daí vem a afirmação que Bitcoin é anônimo, porque não tem como ligar com certeza endereços — por onde passam as transações — com a identidade do dono daquele endereço. Olhando para a cadeia de blocos da rede Bitcoin (tipo o livro de registro de todas as transações realizadas na moeda) você pode ver o dinheiro indo de endereço para endereço… mas não dá para saber por ali quem controla aquele endereço.</p>

<p>Eventualmente alguns dos seus endereços Bitcoin se tornam conhecidos por alguém: se você usar seu endereço em negócios com uma pessoa, ela provavelmente terá alguma informação de contato sua que ela poderá relacionar ao seu endereço. Então ele é rastreável? Teoricamente sim, tão rastreável quanto receber uma nota de troco na padaria e tentar fazer o padeiro lembrar quem deu aquela nota para ele. Simplesmente não é uma abordagem realista, ainda mais se a quantia tiver passado por várias transações antes de levantar a suspeita.</p>

<p>E quanto a “essa porra” ser um “oceano de credibilidade”? Do que se duvida do Bitcoin? Se for da sua robustez como moeda de troca, tem toda uma economia (ilícita) bem estabelecida e dependente do Bitcoin, de modo que demanda por ele não vai faltar, garantindo sua liquidez. Se for da sua anonimidade e conveniência: bandidos usam sem medo de serem pegos. Que garantia maior você poderia querer? Eu não vejo como é possível o fato de o Bitcoin ser o instrumento de negociação escolhido por criminosos cautelosos ser de alguma forma indicativo de sua fragilidade.</p>

<p>Quanto a negócios legítimos que aceitam Bitcoin, dá uma checada nessa página: <a href="https://en.bitcoin.it/wiki/Trade">https://en.bitcoin.it/wiki/Trade</a>. Em particular, compro jogos com Bitcoins aqui: <a href="http://www.jjgames.com/" title="JJGames.com">JJGames.com</a>. Fora isso, se você for um especulador ou minerado que ganhou algum dinheiro com Bitcoin, você pode simplesmente trocá-lo por outra moeda em algum dos sites de câmbio de Bitcoins existentes, o único brasileiro não é lá muito ativo: <a href="http://www.mercadobitcoin.com.br/" title="Mercado Bitcoin">Mercado Bitcoin</a>. O tal valor “virtual” do Bitcoin é tão “virtual” quanto o valor de ações da Bovespa, com a diferença que você não precisa de esperar o horário de pregão para vender — funciona direto, inclusive nos finais de semana.</p>

<p>E baseado na afirmação:</p>

<blockquote>
  <p>“bitcoins e seus entusiastas residem na mágica intersecção de</p>

  <ul>
    <li>pessoas que não entendem o mercado financeiro,</li>
    <li>pessoas que não entendem investimentos, e</li>
    <li>pessoas que não entendem matemática.”</li>
  </ul>
</blockquote>

<p>concluo que se as pessoas que fizeram e ainda fazem o Bitcoin entendessem tanto de mercado financeiro, investimentos e matemática quando o Sr. Izzy A. Nobre, ele com absoluta certeza não existiria…</p>

<p><em>postado originalmente no blog antigo</em></p>]]></content><author><name></name></author><summary type="html"><![CDATA[Após um Amigo de Bolso™ do Izzy me apontar o link [ Dossiê HBD ] Bitcoins, a moeda do futuro (no presente é só uma piada mesmo), por ser de tantas maneiras impreciso e tendencioso, resolvi publicamente discordar e replicar nos pontos pertinentes.]]></summary></entry><entry><title type="html">Para que realmente serve o software?</title><link href="https://lvella.github.io/para-que-realmente-serve-o-software/" rel="alternate" type="text/html" title="Para que realmente serve o software?" /><published>2013-01-04T00:00:00+00:00</published><updated>2013-01-04T00:00:00+00:00</updated><id>https://lvella.github.io/para-que-realmente-serve-o-software</id><content type="html" xml:base="https://lvella.github.io/para-que-realmente-serve-o-software/"><![CDATA[<p>Dada a atenção indevida atraída pelo post “<a href="/para-que-serve-o-software/" title="Para que serve o software?">Para que serve o software?</a>“, onde leitores casuais desavisados caíam na armadilha de ler uma coisa que não tinha nada a ver com o que procuravam, me senti na obrigação de escrever um post (anos depois) explicando realmente, em nível técnico-didático-objetivo, para que serve o software, e não aquela baboseira que era o post original.</p>

<p><em>Software</em> é um estrangeirismo vindo do inglês que antagoniza a palavra <em>hardware</em>, que significa: “hard” -duro; “ware” -bem de consumo, mercadoria. O termo originalmente utilizado para designar pequenas peças de metal, adquiriu um novo sentido no século XX: designar a parte dura, material do computador. Daí, já que “hard” é duro e “soft” é mole, não custou nada para alguém cunhar a palavra <em>software</em>, que em contrapartida ao <em>hardware</em>, designa a parte lógica do computador, seus procedimentos de funcionamento, seu “conjunto de instruções” (e coloco “conjunto de intruções” entre aspas porque, apesar de as pessoas normais conseguirem entender muito bem o sentido que dou aqui a esta expressão, já posso prever eventuais leitores programadores reclamando disso e dizendo que “conjunto de instruções” é uma propriedade de arquiteturas de processadores e coisas afins; mas não é este sentido que aplico aqui).</p>

<p>Para entender melhor, é preciso saber que computadores são mais que simples calculadoras gigantes (embora pareça, e muitas pessoas os usem assim); têm uma característica fundamental que os diferencia de calculadoras puras: eles são programáveis (tá, tem calculadoras programáveis, mas isso também as define como computadores). Significa que um computador é uma máquina feita para seguir instruções precisas, um conjunto de passos bem definidos, orientados para algum propósito (bem, assim esperamos, mas nada impede você de programar o seu computador para fazer coisas sem propósito, ou de rodar programas despropositados nele), e essas instruções podem ser alteradas sem ter que se reconstruir a máquina. As tarefas dadas aos primeiros computadores (dado o contexto da Segunda Guerra Mundial) eram cálculos de trajetórias balísticas e decifragem das comunicações inimigas.</p>

<p>Mas o computador não sabia fazer isso sozinho. Como calcular a trajetória das balas de canhão, Isaac Newton já ensinou para todo mundo faz muito tempo, então coube a alguém que aprendeu com ele ensinar ao computador como fazê-lo. Esse alguém (mais provavelmente, vários <em>alguéns</em>) já o sabiam como fazer à mão: existe um conjunto de passos bem definidos e fórmulas já bem conhecidas para o procedimento; não é necessário nenhuma intuição ou criatividade para realizá-lo, só é preciso saber como se faz e repetir o processo. Só que fazer isso à mão é lento e passível de erro, porque pessoas se cansam e se distraem, especialmente se for um trabalho chato como esse. Daí os engenheiros programaram a sequência de passos objetivos que o computador deveria seguir para chegar ao resultado, o procedimento para realizar a tarefa, e é precisamente esse procedimento, codificado na língua do computador, que é o <em>software</em>.</p>

<p>Descifrar códigos secretos é um trabalho mais chato ainda, tem que ficar testando muitas variações e técnicas de decifragem em cima do código, até sair alguma coisa legível. Como um computador é muito mais rápido que uma pessoa, ele é bastante adequado para a tarefa, desde que ele saiba de antemão quais técnicas e em que ordem elas devem ser aplicadas ao texto. Esses técnicas, dadas em ordem bem definida, e codificadas na língua do computador, constituem o <em>software</em>.</p>

<p>Veja que estresso a importância da “ordem” do procedimento. Alguém poderia perguntar: mas e se o computador aplicasse as técnicas em ordem aleatória? Então eu responderia que daí não é um computador. Um computador é incapaz de uma ação aleatória. Nem mesmo consegue escolher uma carta de um baralho fechado. O melhor que ele consegue é chamado de “pseudoaleatório”: ele segue um processo tão esquisito, matematicamente forjado para este propósito, que <em>simula</em> aleatoriedade, porque a distribuição dos valores gerados por esse processo é uniforme e aparentemente imprevisível. Mas se depois de gerar um bilhão de números pseudoaleatórios, você “rebobinar” o computador para o ponto em que ele começou, ele gerará exatamente os mesmos números. É uma disciplina abrangente e complexa o estudo dos processos de geração de valores pseudoaleatórios, que se justifica por essa incapacidade dos computadores.</p>

<p>É claro que alguém pode desenvolver alguma engenhoca que gera eventos aleatórios e ligá-la ao computador (e isso é comummente feito nos computadores, com o hardware de geração de número aleatório), ou guardar parâmetros de eventos externos aleatórios, como as ações dos usuários humanos, e usar isso para sortear suas ações, ou qualquer ideia do tipo que com certeza alguém já pensou, mas do processo puro da computação, decorrente da execução de um software, uma ação aleatória é impossível. E isso é óbvio se considerarmos que um software é uma sequencia bem definida de passos: se é bem definida, não pode ser aleatório.</p>

<p>É uma questão física/filosófica se eventos realmente aleatórios existem no mundo real; se tivermos todos os parâmetros de um dado e a força com que foi lançado, podemos calcular precisamente como ele cairá. A existência, portanto, admitiria algo realmente aleatório? Certamente podemos detectar eventos aleatórios na física quântica, mas não seriam eles parte de um processo mais primordial que ainda não entendemos? Essa incerteza sobre a natureza da realidade leva à especulação mais fascinante da computação teórica: seria a realidade um software, uma simulação? Se sim, ela não é fundamentalmente diferente de nenhum simulador ou jogo de computador que jogamos, somente maior. Claro que essa ideia é refutada por aqueles que acreditam na superioridade do intelecto humano sobre o computador, eles argumentam que um computador nunca poderá ter consciência, criatividade, imaginação, etc, e portanto é fundamentalmente incapaz de reproduzir a realidade, mesmo se fosse grande o suficiente, já que obviamente há vida consciente nesta realidade que ele seria incapaz de reproduzir.</p>

<p>Divagações filosóficas à parte, agora que já expliquei o conceito teórico fundamental sobre o software, vamos à parte prática. Na década de 1950 o software era tão pequeno que não era nada além de um procedimento de cálculo balístico, um mero acessório do computador. Hoje em dia software vem em todos os tamanhos, e pode ser tão grande que o custo do computador é irrelevante perto do seu custo. Antigamente o software tinha que ser projetado para um computador específico, cada computador tinha seu próprio “conjunto de instruções” suporatas (agora sim, no sentido ortodoxo do termo), sua própria linguagem para montar os programas (linguagem de montagem, <em>assembly</em> em inglês), e embora equivalentes, eram incompatíveis (você pode expressar as mesmas idéias em português ou alemão, portanto são línguas “equivalentes” para o propósito de comunicação, mas quem só fala português não entende alemão, portanto são “incompatíveis”). O programa de um não rodava no computador do outro. A lógica era: o fabricante projetava e fazia o computador do melhor jeito que pudesse dentro dos recursos, depois os programadores se viravam para (re)escrever os programas.</p>

<p>Hoje o software é mais valioso que a máquina em si, dezenas de fabricantes diferentes fazem computadores compatíveis entre si, só para poderem funcionar com o software já existente. O software se tornou tão grande que os cálculos e processamentos úteis realizados pelo computador se perdem no meio de firulas gráficas, sons, animações e coisas piscando, mas tudo criado fundamentalmente do mesmo jeito: bilhões de instruções executadas por segundo para decodificar um filme 3D FullHD com som 8.1 surround, todas executadas passo a passo, bem definidas, perfeitamente ordenadas, totalmente previsíveis, e com seus efeitos cuidadosamente planejados pelos programadores e engenheiros. Cada pixel da tela precisamente identificado por suas coordenadas cartesianas X e Y têm cada um dos seus três canais de cores (vermelho, verde e azul) definidos pelo preciso processo de funcionamento do software, que instrução por instrução, diz para o computador exatamente o que fazer com aqueles dados vindo do disco de Blu-Ray para chegar naquela intensidade daquela cor daquele pixel naquela posição da tela que você observa por menos de um vigésimo de segundo enquanto o filme passa.</p>

<p>Nossa, isso foi dramático. Na verdade não é bem assim. Computadores modernos na verdade possuem vários processadores, que podem executar vários programas simultaneamente, ou trechos diferentes do mesmo programa, ou então até o mesmo trecho do programa, mas cada um com um pedaço diferente dos dados que precisam ser processados. As possibilidades são bem flexíveis; afinal, é o software (ou o programa) que determina como vai ser; o hardware só obedece. Na verdade verdadeira, dentro da caixa que chamamos computador, podem ter ainda mais processadores, com propósitos específicos que rodam software diferente dos o processadores principais, que é o caso das placas de vídeo, que têm processadores projetados para simular efeitos gráficos tridimensionais.</p>

<p>Todo esse circo do computador moderno é coordenado pelo software mãe: o sistema operacional. Ele é primeiro software que liga e último que morre (bem, quase). Ele determina como todos os outros programas serão executados, em que ordem eles serão executados, como interagirão entre si e com o usuário e como eles se alternarão entre os recursos do computador rápido o suficiente para que você ache realmente que todos os programas que você tem aberto funcionam simultaneamente (não fosse assim, um Quad-Core não poderia rodar mais que quatro programas ao mesmo tempo). Ele também controla todo o hardware, sabe do que o hardware precisa, quando precisa e sabe se comunicar com ele (os famosos <em>drivers</em>), traduzindo de/para os outros programas o funcionamento do mouse, do teclado, do vídeo, do som, da rede, etc. Tudo isso com seu descrito passo a passo, instrução por instrução, que é pacientemente lida, decodificada e executada pelo processador, bilhões de vezes por segundo…</p>

<p><em>postado originalmente no blog antigo</em></p>]]></content><author><name></name></author><summary type="html"><![CDATA[Dada a atenção indevida atraída pelo post “Para que serve o software?“, onde leitores casuais desavisados caíam na armadilha de ler uma coisa que não tinha nada a ver com o que procuravam, me senti na obrigação de escrever um post (anos depois) explicando realmente, em nível técnico-didático-objetivo, para que serve o software, e não aquela baboseira que era o post original.]]></summary></entry><entry><title type="html">Um Conto de Seriemas</title><link href="https://lvella.github.io/um-conto-de-seriemas/" rel="alternate" type="text/html" title="Um Conto de Seriemas" /><published>2012-06-07T00:00:00+00:00</published><updated>2012-06-07T00:00:00+00:00</updated><id>https://lvella.github.io/um-conto-de-seriemas</id><content type="html" xml:base="https://lvella.github.io/um-conto-de-seriemas/"><![CDATA[<p>Existem alguns cálculos, publicados já faz algum tempo, em revistas nada especializadas, sobre a poluição gerada na utilização dos eletrodomésticos das residências, e o impacto desta poluição no aquecimento global. Esta informação pode causar uma certa estranheza nos leitores brasileiros mais instruídos, principalmente aqueles que não costumam utilizar eletrodomésticos movidos a motor de combustão interna, mas sim, como o próprio nome indica, eletrodomésticos movidos à eletricidade. Não por que as pilhas descartadas não sejam um problema ambiental. Não, elas são um problema ambiental sim, embora mais relacionado com a contaminação do solo com metais pesados do que com o efeito estufa; entretanto, mesmo sendo uma fonte de eletricidade bastante utilizada por aqui, os nossos eletrodomésticos não costumam ser movidos à pilha, mas sim a energia elétrica advinda da tomada.</p>

<p>Esta, por sua vez, vem do transformador localizado em um poste a, no máximo, algumas dezenas de metros da residência, que é alimentado pela eletricidade que vem de algum processo e infraestrutura que eu não entendo exatamente como funciona, mas que no final das contas (como ensinam nas escolas) vem de uma usina hidrelétrica.</p>

<p>E eis a fonte da estranheza da informação de que eletrodomésticos causam efeito estufa para os brasileiros. Claro que o lapso de estranheza é momentâneo. A pessoa rapidamente ligará o conceito de eletrodoméstico, tomada e hidrelétrica com a informação conflitante, que é poluição e efeito estufa. Todo mundo sabe que carros com seus motores fedorentos causam efeitos estufa. Vacas com seus puns fedorentos causam efeito estufa. Mas nunca ninguém ouve falar que eletrodomésticos ou hidrelétricas causam efeito estufa. A esta altura, aqueles com um pouquinho mais de imaginação logo deduziriam que estes dados, claro, não se tratam do Brasil, mas sim da sede do nosso império, os EUA. E em meio segundo após conhecer o estudo sobre o efeito dos eletrodomésticos no aquecimento global, quando as ligações sinápticas de seu cérebro se estabilizam, o brasileiro sorri, e se orgulha de ter a energia mais limpa do mundo, a despeito, é claro, de toda destruição ambiental necessária para se construir uma hidrelétrica, e da briga com os índios e ribeirinhos desalojados, e os macacos raivosos no topo das árvores sendo engolidas pelas águas.</p>

<p>Ah, mas que bela vista e fonte de alegria é uma hidrelétrica construída. Bem, nem sempre, mas frequentemente, na geografia pouco acidentada do pais, as hidrelétricas precisam de barragens que formam gigantescas represas (fonte de toda a destruição ambiental), para funcionarem com a potência necessária para trazer a energia e o progresso a esta grande nação. Tirar do escuro aquelas famílias rurais tão sofridas que vemos nas propagandas da companhia de energia elétrica ou do próprio governo do estado de Minas Gerais, que também propagandeia a qualidade da educação durante a pior crise do ensino público que se tem na memória recente.</p>

<p>Mas muito mais do que tirar do escuro, as hidrelétricas têm outro papel social: a vista. Nas literaturas, desenhos e filmes importados da sede do Império, é muito frequente a ocorrência de lagos e lagoas. É onde os pais levam os filhos varões, quando já estão crescidinhos, para pescar, enquanto deixam as mães e irmãs em casa, pois os laços entre pais e filhos aparentemente só valem a pena ser estreitados com atividades bucólicas quando dentro do mesmo gênero sexual. Não temos por aqui a mesma ocorrência de lagos e lagoas naturais que aparentemente existe na gringolândia, mas considerando que agora só recorremos à luz de vela em situações excepcionais, existe um enorme número de hidrelétricas que dão conta do suprimento de luz, e portanto, existe um grande número de represas.</p>

<p>Lindas represas fluviais, enterradas no meio de florestas tropicais, fazendas de soja, gado cagão, agrotóxicos, e todas essas coisinhas necessárias a uma boa economia essencialmente agrária (o que é uma grande vantagem em meio a uma economia global em crise, pois se come soja e gado, que é muito menos indigesto do que papeis, ouro, petróleo, títulos bancários podres, armas, guerra e essas coisas com que lidam as economias mais avançadas). A estas maravilhosas e pastoris represas fogem com suas concubinas e prostitutas os trabalhadores do interior nos finais de semana. Passam o tempo todo pescando, enchendo os cornos de cachaça e ouvindo musica ruim. Alguns até levam toda a família, para então voltarem bêbados para casa no domingo a noite e causarem acidentes nas estradas.</p>

<p>E em meio ao cenário campestre das margem das represas, analogamente ao que acontece aos lagos e lagoas (eu acho, sei lá, mal sei o que é um lago), se desenvolvem as atividade humanas que visam o lazer, a paz, a tranquilidade, a música ruim e a cachaça. Mais do que na margem, muitos até adentram à própria represa, construindo barracos de madeira que flutuam sobre galões de agrotóxico vazio, formando a vista mais horrível que alguém poderia esperar ao ir para lá. As várias casinhas coloridas, desbotadas e horrorosas flutuando em meio às manchas de dejetos gordurosos despejados por elas mesmas, já que elas possuem cozinha e banheiro, e o esgoto é ali mesmo. Ah se estivesse ali o sujeito que teve a ideia de tornar famosas as favelas brasileiras no exterior!</p>

<p>Desejosos de aliviar o estresse do trabalho burocrático no escritório de umas das incontáveis cidades do interior do Brasil, localizada no seio da savana sul-americana, estes dois amigos pegam a estrada no final de semana rumo à represa mais próxima (que nem é muito longe), onde poderão pescar e ser picados por mosquitos. Chama-lo-emos de motorista e passageiro. A rodovia só os leva a quatro quintos da distância total da cidade à represa, e o resto do trajeto deve ser feito em meio às poeirentas estradas (lamacentas, nos dias de chuva) que ligam as fazendas ao resto do mundo.</p>

<p>A paisagem nessas estradas é intermitente, as vezes são vistos pastos para criação de bovinos, as vezes campos com soja ou o que quer que seja que esteja mais valorizado na bolsa de valores (que eu tenho a remota esperança que reflita o que as pessoas realmente queiram consumir, e nem tanto o que os especuladores profissionais acham que as pessoas deveriam querer consumir), e também, um pouco mais escasso, blocos isolados de matas e vegetação nativa, que são requeridos por lei. Nem todos os fazendeiros obedecem a esta lei, mas os que o fazem, tratam de construir suas reservas de mata nativa o mais longe possível da da fazenda adjacente, de modo que as áreas de floresta natural são intercaladas com as plantações e pastos, e a fauna se viu obrigada a construir um caro e complexo sistema de logística e transporte conectando os vários pequenos trechos de flora, o que gera uma grande insatisfação às onças pardas, que frequentemente precisar pegar o metrô inter-reservas para que possam encontrar suas presas.</p>

<p>Numa clara desobediência às regras da Associação da Fauna Brasileira (a entidade responsável pelos metrôs inter-florestais) um casal de seriemas caminhava tranquilamente por uma estrada de feitura e uso humano. Um absurdo, pois além de ser extremamente perigoso para animais silvestres utilizarem as instalações humanas, onde correm o risco de serem extintos — ou pior, domesticados — é uma prática extremamente injusta por parte das presas, pois se evadem dos meios oficiais onde os seus predadores naturais esperariam encontrá-las. Criaturas perversas e subversivas são as seriemas: com um claro descaso pelas regras da AFB, e de tanto usarem os campos e instalações humanas, são muito mais frequentemente avistadas pelas pessoas do que qualquer outro animal silvestre terrestre destas bandas. Isto lhes deu o temível rótulo de “Menos Preocupante” na lista das espécies ameaçadas de extinção, o que significa que a qualquer momento sua caça pode ser legalizada, como já fizeram com o jacaré e outras espécies superabundantes ao longo da história.</p>

<p>Pouco custa para algum nerd lunático fascinado em anime e quadrinhos comprar um arco e um punhado de flechas e começar a treinar tiro ao alvo no meio do mato. Logo ele leva seu arco para as convenções locais de animes e pode ser que a moda pega e mais um monte de outros nerds lunáticos comprem arcos também. E onde descarregar todo o instinto assassino acumulado em todos estes anos de RPG e vídeo games violentos? Nas seriemas que ficam dando bobeira no mato, é claro. E se os ruralistas no congresso estão conseguindo obliterar o código florestal brasileiro, dando respaldo legal para piorarem a situação das florestas — que já nem é tão boa — o que custa para os lunáticos (que deixaram de ser nerds para serem bárbaros selvagens) reivindicarem seus direitos de destruir o meio ambiente em prol do interesse próprio e conseguirem a legalização da caça com arco e flecha das seriemas? É claro que isto é uma situação hipotética — alguns diriam até absurda (outros nem tanto, depois de terem assistido à aprovação do novo Código Florestal Brasileiro) — mas ilustra o perigo real que correm as seriemas ao desobedecerem as regras da AFB e se exporem para os humanos.</p>

<p>Precisamente a mesma estrada que a dupla de amigos tomara para alcançar a represa é a estrada que o casal subversivo de seriemas escolheu para tomar sol. Em uma margem da estrada havia uma plantação, e na outra a borda de um dos blocos isolados de mata do serrado. O momento em que uma criatura de mais de uma tonelada se aproxima a 50 km/h, vestindo uma armadura metálica reluzente, é o momento em que se esvai de qualquer seriema o orgulho e a valentia que as faziam enfrentar o sistema, e elas se põem a correr desesperadamente. O motorista avista as seriemas na estrada, diminui a velocidade, e maldosamente se diverte ao ver seu terror ao fugirem da camionete. Ele sabia, que apesar de serem aves, elas são animais terrestres. Na verdade, ele nem sabia que elas podiam voar. Talvez, nem mesmo as próprias seriemas saibam que conseguem voar até que a situação aperte muito. Muita gente nem consideraria aquilo um voo de verdade, já que parece mais um pulo alto com farfalhar de asas, semelhante ao voo das galinhas, que muita gente também não considera um voo de verdade. Para estes, voar significa que você deve decolar, ter no ar controle e autonomia o suficiente para dar a volta na torre Eiffel (se você estiver em Paris) e pousar em segurança. Nem o pulo desajeitado das galinhas e seriemas, nem o arremessar de um planador no ar com um estilingue se encaixam nessa definição de voo.</p>

<p>Para surpresa do passageiro e satisfação do motorista, as seriemas fugiram do carro pela estrada, no sentido que a camionete ia, de modo que a perseguição ao casal durou algumas dezenas de metros, até que uma das aves, numa manobra ousada e mostra de total deslealdade com a companheira, se enfia no meio da plantação enquanto a outra continua fugindo do carro pela estrada. O motorista começou ficar intrigado, e começou a se perguntar por que a que sobrou também não fugia para a plantação, como a outra havia feito.</p>

<p>Fontes dizem que uma seriema pode sustentar a fuga de um carro em uma velocidade de até 25 quilômetros por hora. Pois esqueceram de avisar a esta seriema que este era seu limite, porque por um bom tempo ela sustentou uma fuga a quase 40 quilômetros por hora. O motorista, não sabendo que ela podia voar, vendo incapacidade do bicho de sair da estrada, e não querendo atropelá-lo, começou a ficar irritado. Perguntava em voz alta ao passageiro:</p>

<p>— Por que ela não sai da estrada?</p>

<p>— Eu sei lá! — respondia ele.</p>

<p>Então ele resolveu apelar para a manobra que os motoristas costumam utilizar quando o veículo da frente é uma lesma e eles estão com pressa: ultrapassagem. Ele desviou a camionete para a esquerda (cabiam ela e a seriema lado a lado na estrada, visto que a seriema não é muito larga para um automóvel) e começou a acelerar. Aí a seriema, que até o momento talvez não tenha ficado mais do que muito assustada, viu a coisa ficar feia e se desesperou. A criatura encouraçada estava ganhando terreno e se movimentando lateralmente, possivelmente em alguma manobra esperta de predador que se antecipa à trajetória da presa. A seriema não estava ainda desesperada o suficiente para voar, então fez a coisa mais inteligente que uma presa terrestre poderia fazer, e correu para o lado contrário ao escolhido pelo predador, finalmente entrando na plantação, a exemplo da companheira.</p>

<p>Naquela tarde, a seriema se gabou de como ela distraiu o predador para que a outra pudesse fugir, e então sozinha subjugou seu perseguidor, usando de sua astúcia e velocidade. Já na beira da represa, o motorista logo esqueceu o incidente, mas o passageiro que teve mais tempo sem ter o que fazer, matutou o caso por um tempo e perguntou:</p>

<p>— Descobriu por que seriema não saía da estrada?</p>

<p>— Não. Por que?</p>

<p>— A seriema achava que ela era nossa presa, ela não imaginava que a gente estava simplesmente seguindo a estrada. Quando a primeira entrou na plantação, ela achou que tinha cinquenta por cento de chance ser seguida, mas que por acaso escolhemos a outra. Daí, não havia mais sentido para a outra desviar o seu caminho da linha reta, pois achava que para onde ela fosse, seria seguida por nós, inclusive dentro da plantação. Só mudou de atitude quando você jogou o carro para a esquerda, daí que virar para a direita passou a ser uma rota de fuga melhor do que a linha reta, levando-a a sair da estrada. Em suma, ela foi vítima do próprio ego, achando que era importante o suficiente para ser perseguida pelo carro aonde quer que ela fosse.</p>

<p><em>postado originalmente no blog antigo</em></p>]]></content><author><name></name></author><summary type="html"><![CDATA[Existem alguns cálculos, publicados já faz algum tempo, em revistas nada especializadas, sobre a poluição gerada na utilização dos eletrodomésticos das residências, e o impacto desta poluição no aquecimento global. Esta informação pode causar uma certa estranheza nos leitores brasileiros mais instruídos, principalmente aqueles que não costumam utilizar eletrodomésticos movidos a motor de combustão interna, mas sim, como o próprio nome indica, eletrodomésticos movidos à eletricidade. Não por que as pilhas descartadas não sejam um problema ambiental. Não, elas são um problema ambiental sim, embora mais relacionado com a contaminação do solo com metais pesados do que com o efeito estufa; entretanto, mesmo sendo uma fonte de eletricidade bastante utilizada por aqui, os nossos eletrodomésticos não costumam ser movidos à pilha, mas sim a energia elétrica advinda da tomada.]]></summary></entry></feed>